habitar sobre o habitado
Estes processos, aliados a uma nova realidade em que as cadeias globais de distribuição tornaram redundantes os territórios que outrora sustentavam as cidades na sua proximidade, conduziram à progressiva diluição dos limites entre o urbano e o rural. Deste fenómeno resulta uma paisagem fragmentada, composta por uma sucessão de “não-lugares”, onde as características de ambos os domínios se confundem. Neste contexto, compromete-se a qualidade do espaço público — muitas vezes inexistente — e assiste-se à erosão do potencial produtivo dos territórios.
Este novo paradigma, assente numa lógica em que a autonomia produtiva deixou de constituir uma prioridade, não está isento de riscos. Pelo contrário, expõe-nos a fragilidades sistémicas sempre que as cadeias de abastecimento globais são postas em causa.
Perante este cenário, importa questionar se as decisões políticas e de planeamento não deveriam reconsiderar os modelos de ocupação do território, incorporando margens de redundância e resiliência.
Simultaneamente, num contexto de crise no acesso à habitação, torna-se essencial alargar o debate para além da urgência quantitativa. As cidades perduram para lá dos ciclos políticos e das agendas mediáticas; aquilo que hoje se constrói definirá o habitat das gerações futuras. Assim, a eficiência técnica e a rapidez de execução não podem sobrepor-se ao imperativo de criar lugares com significado, onde as comunidades possam evoluir e viver com um verdadeiro sentido de pertença.
Coloca-se, então, a questão: haverá outras formas de crescimento que operem dentro dos limites da cidade existente, sem pressionar os territórios rurais, sem reforçar dinâmicas de suburbanização e sem perpetuar a lógica metastática que caracteriza muitos dos nossos espaços periurbanos?
Habitar Sobre o Habitado:
A resposta não é nova — mas é urgente.
A História da Arquitectura demonstra-o repetidamente: quando o solo é escasso, constrói-se sobre o que já existe. Em Veneza, como testemunham as vistas Canaletto, em Roma, na sobreposição contínua de camadas, em múltiplos contextos urbanos ao longo do tempo, a cidade cresce melhor por adição, não por dispersão.
Habitar sobre o habitado não é um recurso de emergência. É um princípio.
Densificar a cidade existente é recusar o desperdício. É reconhecer valor no que já está construído. É actuar onde a infraestrutura, a memória e a comunidade já existem.
Densificar é:
• reabilitar em vez de abandonar;
• reforçar em vez de substituir;
• completar em vez de expandir;
• intensificar o uso em vez de consumir território.
É travar o sprawl. É devolver sentido ao espaço público. É criar condições reais para o uso dos transportes colectivos e dos modos suaves. É proteger o solo agrícola. É reduzir a dependência. É aumentar a resiliência.
Mas densificar não é acumular. Não é altura pela altura. Não é maximização cega.
É construir com medida. Com proximidade. Com escala humana.
Alta densidade. Baixa altura. Continuidade urbana. Mistura social. Vida de bairro.
Habitar sobre o habitado é uma oportunidade concreta: corrigir fragilidades construtivas, aumentar a oferta habitacional, gerar valor distribuído — não apenas para grandes promotores, mas para cooperativas, condomínios, pequenos investidores.
É, sobretudo, uma mudança de paradigma.
Não se trata de expandir a cidade.
Trata-se de a terminar.
- Ano
- 2025
- Localização
- porto / portugal
- Tipologia
- académico / investigação
- Estado
- em curso